23.10.09

mãe

Mãe, nesta hora você toureia sua insônia na cozinha
a casa está quieta, as janelas fechadas, meu pai fala números
nesse sonho denso que me ensinou a presença da morte
os filhos estão no mundo soltos, perplexos e impacientes
e nem mesmo terminaram a sobremesa
estão no sereno com suas brincadeiras pesadas de homens
de cada vez o abraço de despedida é mais fundo e mais urgente
e é sempre essa sensação de uma roupa que não se pôs na mala
um suéter mais grosso, mais um par de meias
umas balas de hortelã que de repente recuperam a vida
mas nada que os traga de volta à casa.

Apenas essas reuniões que te confirmam por mais um tempo
quando as pequenas derrotas são deixadas dentro das mochilas
com a roupa suja que cheira a fumaça e cheira a sêmen difuso
ainda assim o amor discreto como uma carta de tia solteira
preside a mesa, corta o pão, sorri dentro de um vinho chileno
que envelheceu anos para ser aberto com o prato errado.

Mãe, os olhos desses filhos têm uma história de olhos estranhos
como faróis de fumaça. como lâmpadas apagadas
nas rodoviárias, nos bares à meia-noite, nas camas divididas
e desses olhos seus olhos retiveram uma solidão opaca
esses braços, mãe, que lhe cercam como roseiras bravas
têm abraçado por interesse e abraçado sem interesse
abraçado por necessidade ou por solidão
como um bêbado abraça um poste desequilibradamente
e outras vezes abraçado por covardia de lutar
e se encontrarem duelando com um fantasma de muitos rostos
seus filhos são fortes, mas seu coração é antigo
e o mundo é vasto e a vontade tão móvel
que esse riso desconjuntado em torno à mesa
esperando o doce
pode ser, bem pode ser que valha a vida.

Um comentário:

Anônimo disse...

Meio que por impulso resolvi visitar o seu blog. Lindo demais.
Carinho sempre da sua tiete mor.
Abração