Meu pai morreu ontem.
Morte de pai é um assunto complicado. Quem sabe não precisa que lembrem; quem ainda não sabe, como nós até ontem, só vai compreender na prática. Além do mais, filhos tendem a mitificar seus pais e criar elegias emocionadas que os tornam improváveis aos estranhos e irreconhecíveis para quem os conhecia bem e, quem sabe, também os amava. Mesmo assim, preciso tentar.
Prefiro uma piscina fria a uma piscina aquecida. Uma piscina fria contém água. Uma piscina aquecida contém algo que lembra água sem proporcionar a experiência real da água. Com o tempo, desenvolvi um método talvez incomum para entrar na água fria: aos poucos. Quem mergulha leva um tranco e sai imediatamente pela outra ponta. Aos poucos, é mais penoso a princípio, mas pode-se nadar por um bom tempo em uma espécie de cumplicidade cautelosa com o frio: não é agradável, mas também não é insuportável. Havendo sol, funciona sempre.
Até agora não pude ficar muito triste; havia providências a tomar. Funerais são uma espécie de ato formal em que espera-se que alguém assuma espontaneamente certos papéis; sem isso o ritual não se cumpre. Acho que fiz minha parte. Mas o tempo todo eu sabia que há um lago fundo de tristeza que ainda preciso transpor. Ele estava ali me esperando e me desafiando. Eu apenas disse a ele, “espere”.
Enquanto escrevo isto, começo a testar a água com os pés. “Meu pai morreu ontem”, começo. Ele aprovaria isso. Meu pai era um italiano atípico, sem queda para a tragédia. E não há mesmo nada de particularmente trágico em pais que morrem em idade avançada. Portanto, limito-me a fornecer a informação essencial. Feito isso, o que mais posso dizer?
Talvez não seja de bom-tom começar dizendo que ele era um sujeito extraordinário, embora não seja só conversa de filho – há quem possa confirmar. Não há, porém, como escapar da palavra “íntegro”. Não é pouca coisa. Não íntegro apenas no sentido mais restrito, mas igualmente incomum, da honestidade no trato com os outros, mas íntegro no sentido original da palavra: inteiro. Feito de várias camadas de complexidade, como todo mundo, mas reconhecível à primeira vista como quem é. Íntegro como alguém que não pode ser outra coisa. Íntegro como uma árvore.
Foi disso, acredito, e de seu senso de justiça absolutamente infalível, que nos veio essa sensação de uma solidez tão extrema que o tornava indestrutível. Mesmo enfraquecido; mesmo doente às vezes; mesmo velho. É curioso que só consigamos encontrar referências minerais ou vegetais quando falamos de nosso pai. Sua velhice nodosa também tinha alguma coisa de árvore. Foi talvez o que nos levou a acreditar que não havia machado bom o bastante para ele.
E havia o humor, tão leve, tão fino e tão surpreendente que às vezes ele fazia ou dizia tornava-se muito mais engraçado ao ser contado do que ao ser presenciado. Era preciso uma certa decantação. O humor do meu pai era o humor da inteligência generosa, aquele que não se volta contra nada ou ninguém, apenas ilumina. Distancia-se, aponta divertido para si próprio e para as suas circunstâncias e pisca um olho maroto.
Era o sujeito, como descobri certa vez, que carregava um estilingue de legítimo galho de goiabeira na sua pasta de gerente de banco. Acho que nada pode defini-lo melhor do que isso.
Não há nenhuma injustiça na morte do meu pai. Deus, se existe – ainda depende de confirmação, mas espero não descobrir tão cedo – não nos pregou nenhuma peça. Pelo contrário, colocou no mundo um homem bom e deixou que ele levasse uma vida plena, serena e feliz. Nós, que fomos coadjuvantes desse experimento, nada temos a reclamar.
Entre as inúmeras classificações arbitrárias da humanidade, gosto daquela que divide o mundo entre as pessoas cuja presença é mais significativa que a ausência – os que roubam a cena, mas que tendemos a esquecer quando deixam o palco e a trama segue em outra direção – e aqueles em quem o dado fundamental é a ausência. Aquelas que fazem falta. Meu pai era do segundo tipo. Não me refiro aqui a nada tão drástico como a morte, apenas à sua maneira de estar integralmente nas coisas de viver, mas sem peso – ou melhor, distribuindo sua presença com tanta sutileza que só nos dávamos conta do que isso significava quando ele já não estava . Meu pai, como muitos já disseram, era zen, no que isso pode representar de humor, sabedoria e leveza. Ele era do tipo cuja ausência tem uma tremenda importância. Sua morte é apenas o colorário natural disso: aqui começa o extenso território da ausência do meu pai.
Agora que ele foi derrubado, agora que nós o transportamos pela primeira vez e o colocamos para descansar no lugar que ele escolheu, com vista garantida para a serra da Mantiqueira, posso começar a sondar o meu lago. Sei que posso atravessá-lo. Sei também que nisso há algo importante a ser aprendido. Agora começo a ser, eu mesmo, meu próprio pai. Hoje é um lindo dia de inverno.
30.6.07
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