Liberdade é uma palavra um tanto fora de moda, mas eu acho que estou ficando antigo e é disso que quero falar hoje. Um sujeito chamado Sartre escreveu um livro, “A Idade da Razão”, cujo personagem é um homem que passa a vida ocupado em ser livre. Ele evita cuidadosamente compromissos permanentes, empregos fixos, lealdades eternas, todas essas coisas que tiram um pedaço da nossa liberdade. No fim ele consegue, claro. Só que aí vem a pergunta: livre para fazer o quê?
Você ainda não tinha nascido quando eu li esse livro. Eu me achava livre e tomava um cuidado danado para continuar assim. O personagem era a minha cara, só que eu não me preocupava tanto com o desfecho. Eu apostava que, mais cedo ou mais tarde, acharia o que fazer com isso.
Aí veio você. Não sei se certas coisas devem ser ditas para os filhos – o manual não diz nada sobre isso - mas a verdade é que eu entrei em pânico. Suponho que também tenha sido assim com os meus pais, mas não tenho certeza. A gente pensa: puxa, o que vem aí é um bichinho que faz cocô várias vezes por dia, não deixa a gente dormir direito, depois cresce e precisa de escola, carinho, bicicleta, computador (ainda não havia computador, mas nessas horas a gente pensa em tudo), apoio moral, universidade, carro, depois vem neto, e nesse tempo todo a gente não pode nem tirar férias de filho. É uma pauleira!
Eu, que havia passado a vida cultivando a minha liberdade com todo capricho, me senti como se tivessem me batido a carteira. (Nunca usei carteira, mas isso é uma metáfora. Se não sabe o que é uma metáfora, pergunte à professora de Português. Afinal, a gente se mata para pagar uma escola decente, etc etc.) E minha viagem para o Canadá, como ficava? E a minha Harley-Davidson? E meu milhão de dólares? E todas as mulheres lindas que ainda iriam me conhecer e me amar desesperadamente, inclusive a princesa Caroline de Mônaco?
Tive nove meses para ficar vigiando desconfiado a barriga da sua mãe e remoendo tudo o que você ainda iria me tomar. Aí você nasceu com uma tremenda cara de inocência, como se não fosse nem um pouco responsável pela minha ruína. Confesso que na hora não deu para lembrar muito das minhas mágoas. Afinal, era aquela confusão de hospital, parentalhada, banho de infravermelho, um monte de crianças chorando no berçário. (Na verdade – acho que já te contaram isso – esse foi aquele dia em que eu também chorei durante horas. Todo mundo me perguntava se eu estava sentindo alguma coisa. Claro que sim, mas eu não sabia o quê, só sabia que alguma coisa antiga havia estalado dentro do meu peito. Eu nunca tinha chorado de felicidade.)
Começou aí um longo período de observação. Eu olhava para você, lambuzada de papinha verde até as orelhas, lembrava as noites mal-dormidas e pensava: bom, podia ser pior. Ela podia ser feia, por exemplo. Você tambem me estudava, provavelmente pensando algo como: quem é esse sujeito de rosto áspero e sem leite, que fala alto quando eu estou quase dormindo, me pega pelo lado errado e engasga quando a minha mãe está trocando a minha fralda?
Criança dá trabalho, você sabe. Além disso, você tem que trabalhar para sustentar a criança. Durante muito tempo eu me esqueci completamente da minha liberdade perdida. Não dava tempo. Enquanto isso, você se dedicava furiosamente à única coisa que sabia fazer direito, além das bolhas de saliva: crescer. E tome-lhe roupa nova, dor de ouvido, lição de matemática, tombo de patins, Leonardo di Caprio. Nem percebi o tempo passando. Daqui a pouco você se manda em busca da sua própria liberdade e eu recupero a minha. Posso até ver a cena: nós dois no aeroporto, neblina (o filme é em preto-e-branco), você linda, possivelmente usando luvas, eu levemente grisalho nas têmporas. Você, sempre simpática, aperta minha mão (depois de tirar as luvas, claro): “Valeu, dédi, foi bom enquanto durou.” Corta para avião decolando. Corta para rosto envelhecido de dédi, talvez uma discreta lágrima, talvez um ligeiro sorriso no canto da boca. Missão cumprida. The End. Enfim, livre!
Agora voltamos ao tal personagem de Sartre. Livre para quê? Nessa nossa longa convivência, tenho aprendido certas coisas sobre o mundo e sobre mim. Coisas de todo tipo. Por exemplo, que dor de ouvido passa com água quente. (Ou será óleo quente? Definitivamente, não dou para a coisa.) Aprendi a ter menos nojo de melecas em geral. Aprendi a olhar para a minha própria infância, lembrar medos, adivinhações e cantigas, tentar recordar o que eu temia e o que eu esperava do meu próprio pai. Aprendi a gostar mais do sim do que do não. Aprendi que é mais gostoso (embora provavelmente menos nutritivo) dar a fruta do que comer a fruta. Quase consegui decorar os nomes de todas as Spice Girls. Aprendi que sou capaz de matar um homem, se for preciso. Relembrei equações de segundo grau. Treinei novas mágicas para fazer para você.
Aprendi, principalmente, algo fundamental sobre a liberdade. Você só é realmente livre se pode dar a sua liberdade. Quando você a guarda como se fosse uma jóia de família, quando você a defende contra tudo e contra todos, acaba ficando escravo dela. O personagem de Sartre resolveu o problema indo lutar numa guerra que nem era dele. Eu, na falta de guerras, tive uma filha. Pode parecer esquisito, mas a gente só se torna realmente livre quando não se importa tanto em ser livre. É como um amigo me disse outro dia: eu queria ter dinheiro pra comprar uma BMW só para ter o prazer de não comprar uma BMW.
Quando você ama alguém, você não se importa em ser livre. Logo, você é livre. As mulheres, que são mais espertas, percebem isso naturalmente. Os homens, porém, têm um cerne duro e fixo, como uma pequena pedra dentro do peito, e tudo gira em torno desse centro. O que é interessante é que meu centro mudou de lugar com você. Agora ele fica em algum ponto intermediário entre nós dois (de fato, mais do seu lado do que do meu). Devo acrescentar que isso não me incomoda nem um pouco. Respondendo à minha própria pergunta: você acha que é mole ser pai? Não, não muito. Mas é uma delícia. Se os filhos soubessem como é bom, provavelmente aproveitariam para pedir aumento da mesada.
Qual é a moral da história? (Histórias de pais, como você sabe, têm que ter uma moral.) Bom, eu poderia dizer algo do tipo “só o amor liberta”, o que é a pura verdade, mas venho de uma família recatada e não costumamos fazer declarações de amor em público. Acho que uma boa moral, principalmente nestes tempos de conformismo e burrice, seria: seja livre, caminhe com suas próprias pernas, não pense o que todo mundo pensa, não acredite no que todo mundo acredita, crie o seu próprio país. Mas, acima de tudo, não se preocupe demais com isso. Não tente ser livre a qualquer preço. Às vezes, a liberdade pode ser só um sonho de prisioneiros.
Falando nisso, quando será que está custando uma Harley-Davidson?