30.6.07

Meu pai morreu ontem.

Morte de pai é um assunto complicado. Quem sabe não precisa que lembrem; quem ainda não sabe, como nós até ontem, só vai compreender na prática. Além do mais, filhos tendem a mitificar seus pais e criar elegias emocionadas que os tornam improváveis aos estranhos e irreconhecíveis para quem os conhecia bem e, quem sabe, também os amava. Mesmo assim, preciso tentar.

Prefiro uma piscina fria a uma piscina aquecida. Uma piscina fria contém água. Uma piscina aquecida contém algo que lembra água sem proporcionar a experiência real da água. Com o tempo, desenvolvi um método talvez incomum para entrar na água fria: aos poucos. Quem mergulha leva um tranco e sai imediatamente pela outra ponta. Aos poucos, é mais penoso a princípio, mas pode-se nadar por um bom tempo em uma espécie de cumplicidade cautelosa com o frio: não é agradável, mas também não é insuportável. Havendo sol, funciona sempre.

Até agora não pude ficar muito triste; havia providências a tomar. Funerais são uma espécie de ato formal em que espera-se que alguém assuma espontaneamente certos papéis; sem isso o ritual não se cumpre. Acho que fiz minha parte. Mas o tempo todo eu sabia que há um lago fundo de tristeza que ainda preciso transpor. Ele estava ali me esperando e me desafiando. Eu apenas disse a ele, “espere”.

Enquanto escrevo isto, começo a testar a água com os pés. “Meu pai morreu ontem”, começo. Ele aprovaria isso. Meu pai era um italiano atípico, sem queda para a tragédia. E não há mesmo nada de particularmente trágico em pais que morrem em idade avançada. Portanto, limito-me a fornecer a informação essencial. Feito isso, o que mais posso dizer?

Talvez não seja de bom-tom começar dizendo que ele era um sujeito extraordinário, embora não seja só conversa de filho – há quem possa confirmar. Não há, porém, como escapar da palavra “íntegro”. Não é pouca coisa. Não íntegro apenas no sentido mais restrito, mas igualmente incomum, da honestidade no trato com os outros, mas íntegro no sentido original da palavra: inteiro. Feito de várias camadas de complexidade, como todo mundo, mas reconhecível à primeira vista como quem é. Íntegro como alguém que não pode ser outra coisa. Íntegro como uma árvore.

Foi disso, acredito, e de seu senso de justiça absolutamente infalível, que nos veio essa sensação de uma solidez tão extrema que o tornava indestrutível. Mesmo enfraquecido; mesmo doente às vezes; mesmo velho. É curioso que só consigamos encontrar referências minerais ou vegetais quando falamos de nosso pai. Sua velhice nodosa também tinha alguma coisa de árvore. Foi talvez o que nos levou a acreditar que não havia machado bom o bastante para ele.

E havia o humor, tão leve, tão fino e tão surpreendente que às vezes ele fazia ou dizia tornava-se muito mais engraçado ao ser contado do que ao ser presenciado. Era preciso uma certa decantação. O humor do meu pai era o humor da inteligência generosa, aquele que não se volta contra nada ou ninguém, apenas ilumina. Distancia-se, aponta divertido para si próprio e para as suas circunstâncias e pisca um olho maroto.

Era o sujeito, como descobri certa vez, que carregava um estilingue de legítimo galho de goiabeira na sua pasta de gerente de banco. Acho que nada pode defini-lo melhor do que isso.

Não há nenhuma injustiça na morte do meu pai. Deus, se existe – ainda depende de confirmação, mas espero não descobrir tão cedo – não nos pregou nenhuma peça. Pelo contrário, colocou no mundo um homem bom e deixou que ele levasse uma vida plena, serena e feliz. Nós, que fomos coadjuvantes desse experimento, nada temos a reclamar.

Entre as inúmeras classificações arbitrárias da humanidade, gosto daquela que divide o mundo entre as pessoas cuja presença é mais significativa que a ausência – os que roubam a cena, mas que tendemos a esquecer quando deixam o palco e a trama segue em outra direção – e aqueles em quem o dado fundamental é a ausência. Aquelas que fazem falta. Meu pai era do segundo tipo. Não me refiro aqui a nada tão drástico como a morte, apenas à sua maneira de estar integralmente nas coisas de viver, mas sem peso – ou melhor, distribuindo sua presença com tanta sutileza que só nos dávamos conta do que isso significava quando ele já não estava . Meu pai, como muitos já disseram, era zen, no que isso pode representar de humor, sabedoria e leveza. Ele era do tipo cuja ausência tem uma tremenda importância. Sua morte é apenas o colorário natural disso: aqui começa o extenso território da ausência do meu pai.

Agora que ele foi derrubado, agora que nós o transportamos pela primeira vez e o colocamos para descansar no lugar que ele escolheu, com vista garantida para a serra da Mantiqueira, posso começar a sondar o meu lago. Sei que posso atravessá-lo. Sei também que nisso há algo importante a ser aprendido. Agora começo a ser, eu mesmo, meu próprio pai. Hoje é um lindo dia de inverno.

17.5.07

você acha que é mole ser pai? (escrito nos 12 anos de joana)


Liberdade é uma palavra um tanto fora de moda, mas eu acho que estou ficando antigo e é disso que quero falar hoje. Um sujeito chamado Sartre escreveu um livro, “A Idade da Razão”, cujo personagem é um homem que passa a vida ocupado em ser livre. Ele evita cuidadosamente compromissos permanentes, empregos fixos, lealdades eternas, todas essas coisas que tiram um pedaço da nossa liberdade. No fim ele consegue, claro. Só que aí vem a pergunta: livre para fazer o quê?

Você ainda não tinha nascido quando eu li esse livro. Eu me achava livre e tomava um cuidado danado para continuar assim. O personagem era a minha cara, só que eu não me preocupava tanto com o desfecho. Eu apostava que, mais cedo ou mais tarde, acharia o que fazer com isso.

Aí veio você. Não sei se certas coisas devem ser ditas para os filhos – o manual não diz nada sobre isso - mas a verdade é que eu entrei em pânico. Suponho que também tenha sido assim com os meus pais, mas não tenho certeza. A gente pensa: puxa, o que vem aí é um bichinho que faz cocô várias vezes por dia, não deixa a gente dormir direito, depois cresce e precisa de escola, carinho, bicicleta, computador (ainda não havia computador, mas nessas horas a gente pensa em tudo), apoio moral, universidade, carro, depois vem neto, e nesse tempo todo a gente não pode nem tirar férias de filho. É uma pauleira!

Eu, que havia passado a vida cultivando a minha liberdade com todo capricho, me senti como se tivessem me batido a carteira. (Nunca usei carteira, mas isso é uma metáfora. Se não sabe o que é uma metáfora, pergunte à professora de Português. Afinal, a gente se mata para pagar uma escola decente, etc etc.) E minha viagem para o Canadá, como ficava? E a minha Harley-Davidson? E meu milhão de dólares? E todas as mulheres lindas que ainda iriam me conhecer e me amar desesperadamente, inclusive a princesa Caroline de Mônaco?

Tive nove meses para ficar vigiando desconfiado a barriga da sua mãe e remoendo tudo o que você ainda iria me tomar. Aí você nasceu com uma tremenda cara de inocência, como se não fosse nem um pouco responsável pela minha ruína. Confesso que na hora não deu para lembrar muito das minhas mágoas. Afinal, era aquela confusão de hospital, parentalhada, banho de infravermelho, um monte de crianças chorando no berçário. (Na verdade – acho que já te contaram isso – esse foi aquele dia em que eu também chorei durante horas. Todo mundo me perguntava se eu estava sentindo alguma coisa. Claro que sim, mas eu não sabia o quê, só sabia que alguma coisa antiga havia estalado dentro do meu peito. Eu nunca tinha chorado de felicidade.)

Começou aí um longo período de observação. Eu olhava para você, lambuzada de papinha verde até as orelhas, lembrava as noites mal-dormidas e pensava: bom, podia ser pior. Ela podia ser feia, por exemplo. Você tambem me estudava, provavelmente pensando algo como: quem é esse sujeito de rosto áspero e sem leite, que fala alto quando eu estou quase dormindo, me pega pelo lado errado e engasga quando a minha mãe está trocando a minha fralda?

Criança dá trabalho, você sabe. Além disso, você tem que trabalhar para sustentar a criança. Durante muito tempo eu me esqueci completamente da minha liberdade perdida. Não dava tempo. Enquanto isso, você se dedicava furiosamente à única coisa que sabia fazer direito, além das bolhas de saliva: crescer. E tome-lhe roupa nova, dor de ouvido, lição de matemática, tombo de patins, Leonardo di Caprio. Nem percebi o tempo passando. Daqui a pouco você se manda em busca da sua própria liberdade e eu recupero a minha. Posso até ver a cena: nós dois no aeroporto, neblina (o filme é em preto-e-branco), você linda, possivelmente usando luvas, eu levemente grisalho nas têmporas. Você, sempre simpática, aperta minha mão (depois de tirar as luvas, claro): “Valeu, dédi, foi bom enquanto durou.” Corta para avião decolando. Corta para rosto envelhecido de dédi, talvez uma discreta lágrima, talvez um ligeiro sorriso no canto da boca. Missão cumprida. The End. Enfim, livre!

Agora voltamos ao tal personagem de Sartre. Livre para quê? Nessa nossa longa convivência, tenho aprendido certas coisas sobre o mundo e sobre mim. Coisas de todo tipo. Por exemplo, que dor de ouvido passa com água quente. (Ou será óleo quente? Definitivamente, não dou para a coisa.) Aprendi a ter menos nojo de melecas em geral. Aprendi a olhar para a minha própria infância, lembrar medos, adivinhações e cantigas, tentar recordar o que eu temia e o que eu esperava do meu próprio pai. Aprendi a gostar mais do sim do que do não. Aprendi que é mais gostoso (embora provavelmente menos nutritivo) dar a fruta do que comer a fruta. Quase consegui decorar os nomes de todas as Spice Girls. Aprendi que sou capaz de matar um homem, se for preciso. Relembrei equações de segundo grau. Treinei novas mágicas para fazer para você.

Aprendi, principalmente, algo fundamental sobre a liberdade. Você só é realmente livre se pode dar a sua liberdade. Quando você a guarda como se fosse uma jóia de família, quando você a defende contra tudo e contra todos, acaba ficando escravo dela. O personagem de Sartre resolveu o problema indo lutar numa guerra que nem era dele. Eu, na falta de guerras, tive uma filha. Pode parecer esquisito, mas a gente só se torna realmente livre quando não se importa tanto em ser livre. É como um amigo me disse outro dia: eu queria ter dinheiro pra comprar uma BMW só para ter o prazer de não comprar uma BMW.

Quando você ama alguém, você não se importa em ser livre. Logo, você é livre. As mulheres, que são mais espertas, percebem isso naturalmente. Os homens, porém, têm um cerne duro e fixo, como uma pequena pedra dentro do peito, e tudo gira em torno desse centro. O que é interessante é que meu centro mudou de lugar com você. Agora ele fica em algum ponto intermediário entre nós dois (de fato, mais do seu lado do que do meu). Devo acrescentar que isso não me incomoda nem um pouco. Respondendo à minha própria pergunta: você acha que é mole ser pai? Não, não muito. Mas é uma delícia. Se os filhos soubessem como é bom, provavelmente aproveitariam para pedir aumento da mesada.

Qual é a moral da história? (Histórias de pais, como você sabe, têm que ter uma moral.) Bom, eu poderia dizer algo do tipo “só o amor liberta”, o que é a pura verdade, mas venho de uma família recatada e não costumamos fazer declarações de amor em público. Acho que uma boa moral, principalmente nestes tempos de conformismo e burrice, seria: seja livre, caminhe com suas próprias pernas, não pense o que todo mundo pensa, não acredite no que todo mundo acredita, crie o seu próprio país. Mas, acima de tudo, não se preocupe demais com isso. Não tente ser livre a qualquer preço. Às vezes, a liberdade pode ser só um sonho de prisioneiros.

Falando nisso, quando será que está custando uma Harley-Davidson?

9.5.07

um lugar chamado pedro

existe um lugar chamado pedro
onde temporariamente são guardadas coisas úteis
coisas antigas
coisas que procuram um nome

o calor de uma mão de criança no pescoço
os cabelos de alguém que dorme
placas de distâncias
cartas imaginárias

o nome de todas as cinqüenta e quatro cores de cavalos
o som de uma flauta na pirâmide de Quéops
pequenas vergonhas
o momento de abismada compreensão de um gato
duas ou três aberturas de xadrez
uma samambaia

quem guarda é quem engendrou todos esses artefatos
retirados do ar, da desesperança.
do instante implacável em que se formavam
e já se transformavam em coisas que poderiam ter sido

quem guarda é quem é guardado por elas
uma criança entre brinquedos gigantescos cujo mecanismo ignora

nesse lugar chamado pedro habita um homem como todos os homens
inspecionando em sua nudez essa mobília impraticável
formada de tempo e perplexidade

ele sabe que nada pode ser feito do seu tesouro

nada pode ser dado
nada pode ser compreendido
nada pode ser esquecido

não há como trocá-lo por uma maçã, um sorriso, um golpe de vento

às vezes, em manhãs especialmente ensolaradas
forma-se uma arquitetura entre todas essas coisas únicas
um nexo onde só havia imobilidade e memória

todas as paisagens juntas formam um único olho
Mozart passa a ser um sinal na pele entre dois dedos da mão
um toque na coxa liga entre si duas histórias impossíveis
um sorriso torto inclina todo o universo

então, como o minotauro,o homem compreende o seu labirinto
e o amor de que é feito
então percebe que não pode encontrar a saída
mas outros podem encontrar a entrada

é por isso que transporta cuidadosamente seu próprio corpo
como se fosse um mapa

é por isso que no centro desse lugar chamado pedro
nem infeliz nem sábio
o homem espera com um presente

talvez ninguém venha
talvez venha uma criança

esse ruído
são passos
ou é

meu
coração?